domingo, 17 de fevereiro de 2008

O CHEIRO A PODRE

Um homem é brutalmente agredido num parque de estacionamento e vem dizer que, tendo apresentado queixa à Justiça dois dias depois, só um ano passado sobre a agressão lhe foram pedidos exames médicos para a comprovar. O país ouve e espanta-se - ou já nem isso, tantos são os casos estranhos com que a Justiça portuguesa nos brinda semana após semana. Mesmo assim, o absurdo tem limites e tudo aquilo que a compreensão e a razoabilidade não alcançam só pode tornar-se suspeito.
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O homem era, ao tempo, vereador do PS à Câmara de Gondomar, presidida por um eleito do PSD e figura grada do futebol nacional, Valentim Loureiro. Diz que a agressão só pode ter sido motivada por denúncias que terá feito acerca da promiscuidade entre a política e o futebol que, no caso de Gondomar como noutros, tem sido, desde há muito, patente e escandalosa. Dois anos depois do crime, está o processo em banho-maria quando surge a denúncia, num livro da ex-companheira de outra figura de primeira linha do futebol nortenho, Pinto da Costa, de que foi este o mandante da agressão ao então vereador, executada por alguém que a própria autora terá contratado na claque do Futebol Clube do Porto.
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A partir daqui o processo acelera, mas acaba de ser arquivado por falta de provas. Sem surpresa para o próprio queixoso, que considera normal este desfecho atendendo à demora e ao aparente desprezo a que o seu caso terá sido votado. Por mero acaso e negligência tosca?
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Ao longo do anos, muitos denunciaram a relação espúria e funesta entre a política e o futebol, que assumiram, no caso do Porto e de Gondomar, contornos francamente vergonhosos. A novidade dos últimos tempos é a suspeita reforçada pelos desenvolvimentos de múltiplos processos em curso, de que os tentáculos dos donos da bola do Grande Porto não chegam apenas à política e terão força suficiente para condicionar ou travar a própria Justiça. É essa suspeita, verdadeira ou falsa, mas mais ou menos assumida, que agora atinge os procuradores do Porto e alimenta uma guerrilha fatal para a imagem e para a credibilidade de todo o Ministério Público.
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Quando a Direcção do Sindicato dos Magistrados vem dizer que, na nossa sociedade, já se sente - "e demasiado forte" - "um cheiro a podre", o que faz é pretender que esse cheiro não vem do Ministério Público, o qual, no essencial, "se mantém são". Mas, infelizmente, o pivete alastra e não é fácil excluir a Justiça, nem qualquer das suas componentes, da grande lista de fontes do mau cheiro. (Fernando Madrinha - Expresso)
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Nota do Papa Açordas: Um excelente artigo do Fernando Madrinha, que retrata bem o processo de Ricardo Bexiga. É pena dizer, mas o Porto actual está ao nível de uma Chicago, anos 20/30...

2 comentários:

quintarantino disse...

Bom, eu neste processo tenho as minhas dúvidas.

Não que ache que Pinto da Costa seja um "santo" ou um "mártir", apenas porque me quer parecer que, a determinada altura, as coisas se transformaram em algo "ad homine".

Mais a mais, e no caso concreto de Ricardo Bexiga, a equipa que coordena a investigação arquiva o caso por falta de indícios suficientemente sólidos embora tivesse a confissão do autor moral do crime.

Afinal, os depoimentos de Carolina Salgado valem apenas nalgumas circunstãncias ou há mais qualquer coisa?

Depois, a Procuradora que arquiva o caso primeiro dispara contra os colegas do Porto para, logo depois, vir dizer que, afinal, o que escreveu não era bem o que queria escrever?

Seria bom que as pessoas se recordassem que é precisamente com a agressão a Ricardo Bexiga que o Apito Dourado se precipita. Até ali era o falatório do costume e pouco mais que isso.

Ora, se tudo foi abafado então ainda vamos ter de ver Procuradores e agentes da Polícia presos pois será a única medida exemplar que se poderia tomar.

Tiago R. Cardoso disse...

A mim nem me interessa se foi A ou B que mandou, o que me interessa é que alguém foi agredido, quase morto e tudo é arquivado.

Mas falta de provas de quê ?

Que o homem foi agredido, espancado?

Enfim, a justiça está como está por um gosto que tem vindo a revelar de arquivar coisas, devem realmente ter muitos armários para meter processos.