quinta-feira, 17 de março de 2016

Soube a pouco... e a tanto

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1 Nunca tinha acontecido e isso, só por si, já é digno de nota. Portugal tem, pela primeira vez na sua história democrática, um Orçamento do Estado aprovado pelos partidos mais à Esquerda. PCP e BE eram, até aqui, descritos como partidos de protesto. E eram partidos de protesto porque era o que se esperava deles. Porque o espaço político precisa de alguém que dê expressão ao protesto. No fundo, PCP e BE eram partidos de protesto porque podiam. Mas isso era dantes. PCP e BE perceberam que, na conjuntura política saída das eleições de outubro, não bastaria ser partido de protesto. Não chegaram ao ponto de se transformarem em partidos de Governo (continua a fazer falta quem possa protagonizar o protesto), mas sim ao de fazerem cedências e viabilizarem um Governo. É cedo para dizer se isso lhes trará vantagens eleitorais. Mas é certo que terão, em próximas eleições, mais argumentos para contrariar o apelo ao voto útil. BE e PCP já não são apenas instrumentos políticos para o derrube de governos, são capazes de construir governos, ainda que dele não façam parte. No fundo, aplicaram a velha máxima de que a política é a arte do possível. E aprovaram o Orçamento do Estado. Ainda que lhes tenha sabido a pouco. E no entanto, como na canção de Sérgio Godinho, soube-lhes a tanto.
2 A crítica mais venenosa à posição do PSD relativamente ao Orçamento e à atual conjuntura política não chegou das bancadas da Esquerda. A crítica mais contundente chegou do CDS, quer pelos termos em que foi feita quer porque foi o "partido irmão" que a fez. Basta recordar as palavras do guru centrista António Lobo Xavier, no Congresso do fim de semana passado. Não tem dúvidas, como o PSD não parece ter, de que o Governo de Esquerda levará o país à "degradação económica e das finanças", e classifica essa previsão como uma "profecia trágica". No entanto, o CDS não pretende ficar agarrado a uma profecia e à crença de que ela se autorrealizará. "Nenhum partido pode sublinhar apenas essa profecia. Se é para isso, é um lugar miserável. Se a nossa satisfação é comprovar a profecia isso é um lugar indigno". Lobo Xavier não ficou a falar sozinho. Mas percebeu-se que o CDS ficou sozinho a falar à Direita. O PSD, pela voz do líder da bancada, Luís Montenegro, limitou-se, ontem, a sublinhar a profecia e a anunciar um lugar na primeira fila à espera que ela se autorrealize. António Costa, como José Sócrates em 2009, "dá o que tem e o que não tem para, a seguir, cobrar em dobro o que deu antes", foi repetindo Montenegro em diversas cambiantes discursivas. Profecias e pouco mais. Um "lugar indigno". Segundo o CDS.(Rafael Barbosa- Jornal de Notícias)


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